Toda vez que Tyla ganha um prêmio de Afrobeats, a internet tem algo a dizer. Spoiler: a internet está errada.
Quem é Tyla?
Tyla Laura Seethal nasceu em 30 de janeiro de 2002 em Edenvale, na região de East Rand, em Joanesburgo, África do Sul. Sua ascendência é misturada: indiana, indo-mauriciana, zulu e irlandesa. Um histórico que torna qualquer argumento sobre “pureza cultural” ainda mais absurdo.
Ela cresceu assistindo a Michael Jackson e Rihanna, implorou aos pais para seguir carreira na música em vez de engenharia de minas e passou o ano sabático de 2020 — durante a pandemia — construindo um som nas redes sociais para o qual ninguém ainda tinha nome.
A ascensão global
- 2019 – Lançou o single de estreia Getting Late com o produtor sul-africano Kooldrink.
- 2021 – Assinou com a Epic Records.
- 2023 – Lançou Water, que se tornou um fenômeno mundial impulsionado por um desafio de dança viral no TikTok baseado no estilo sul-africano “bacardi”.
- Primeira artista solo sul-africana a entrar na Billboard Hot 100 dos EUA em 55 anos.
- 2024 – Lançou seu álbum de estreia homônimo, misturando pop, amapiano, R&B e afrobeats em algo totalmente original.
- 2025 – Apresentou o álbum no Coachella, com silhueta inspirada em Britney Spears e dançarinos sul-africanos.
No BET Awards de 2024, apresentou Jump com Gunna e Skillibeng, com elefante em tamanho real no palco. E dedicou o prêmio de Melhor Artista Revelação à África: “África para o mundo”.
Tyla e a internet: a polêmica repetitiva
Os prêmios vieram em ondas:
- Grammy 2024 – Melhor Performance de Música Africana por Water (primeira vencedora da categoria).
- MTV VMA 2024 e 2025 – Melhor Afrobeats (Water e Push 2 Start).
- MTV EMA 2024 – Melhor Artista de Afrobeats, Melhor Artista Africano e Melhor R&B.
- Billboard Music Awards 2024 – Melhor Artista de Afrobeats e Melhor Música de Afrobeats.
- AMA 2025 e 2026 – Artista Favorita de Afrobeats (dois anos consecutivos).
- iHeartRadio Music Awards 2025 – Artista Mundial do Ano (primeira sul-africana a ganhar, superando Burna Boy e Tems).
E toda vez, sem exceção, a internet tem anotações:
“Tyla NÃO é uma artista de Afrobeats!!!!” — @MzJojoB
“Tyla também não faz Afrobeats de verdade” — @kabrieltwt
“Ela faz música pop que incorpora amapiano, afrobeats, R&B e dancehall” — @gllowxpositvity
Os comentários se repetem a cada temporada de premiações com a confiabilidade de um mau hábito.
O que a própria Tyla diz?
Em entrevista à Billboard (2023), explicou que se sentiu atraída pelo amapiano em 2019 e que seu som mistura R&B, pop, amapiano e afrobeats — algo que ela mesma chama de “popiano”. O termo pertence a ela.
À Vogue, disse:
“Eu represento a música africana. Eu realmente promovo o Afrobeats e o Amapiano porque é algo que não é totalmente reconhecido globalmente.”
Ela não se distancia do Afrobeats. Ela o defende.
Sobre a categoria única “Afrobeats” nas premiações, completou:
“O Afrobeats é o motivo pelo qual estamos sendo reconhecidos. É um gênero que abriu muitas portas. Eu só estava me sentindo de uma certa maneira porque é a única categoria africana, e isso tira o protagonismo tanto do Afrobeats quanto do Amapiano.”
Ela não diz que não é Afrobeats. Ela diz que o guarda-chuva é pequeno demais para tudo o que precisa cobrir. Isso não é uma reclamação de alguém de fora — é um argumento de quem entende o ecossistema e quer mais cuidado com ele.
Afinal, o que é Afrobeats?
Afrobeats (com “s”, diferente do Afrobeat de Fela Kuti) não é uma fórmula sonora rígida. É um gênero amplo, enraizado na música popular da África Ocidental, construído sobre highlife, hip hop, R&B e dancehall.
A palavra-chave é popular. Afrobeats é música popular africana.
- Essence (Wizkid) não soa como Last Last (Burna Boy).
- Fall (Davido) não soa como Calm Down (Rema).
O que compartilham é o DNA: uma sensibilidade africana na produção, no ritmo, nas referências culturais e na intenção.
Conclusão: por que a internet está errada?
Tyla é africana. Faz música pop com raízes em sons africanos. Water carrega influência rítmica da África Ocidental. Ela colabora com artistas como Ayra Starr. Defende o Afrobeats em palcos globais — do Grammy ao Coachella. E ganha prêmios de Afrobeats repetidamente nas maiores cerimônias do mundo.
O argumento de que “ela não é Afrobeats” só se sustenta com uma definição tão restrita que excluiria metade dos artistas que hoje atuam sob esse rótulo.
Os fãs que criticam Tyla não estão errados em se preocupar com a integridade do gênero. Esse impulso é saudável. Mas estão aplicando um teste que o próprio gênero nunca impôs de forma consistente — e o fazem seletivamente contra uma mulher sul-africana.
Tyla é uma artista de Afrobeats. Ela tem os prêmios, as colaborações, a influência cultural e suas próprias palavras para provar isso.
A questão nunca foi se ela se qualifica.
A questão é: por que, toda vez que ela vence, ainda precisamos ter essa conversa?

