Na movimentada e caótica capital da República Democrática do Congo, Kinshasa, nasceu um movimento musical único. Longe dos estúdios sofisticados e dos instrumentos caros, um grupo de artistas encontrou uma forma engenhosa de criar música: transformar o lixo em som. Esta é a história da “música do lixo”, um fenómeno DIY (faça você mesmo) que está a ganhar o mundo.
A Filosofia do “Desenrasca”
Em Kinshasa, a população aprendeu, por necessidade, a arte do reaproveitamento. O que para muitos é lixo, para os habitantes da cidade é matéria-prima. Este espírito de sobrevivência, conhecido localmente como o “décimo terceiro mandamento” — desenrasca-te —, é a base de toda uma cena artística underground.
O documentário “System K” mostra como esta geração de criativos usa o que a cidade deita fora para construir instrumentos, cenários e fatos de palco. Não se trata apenas de uma questão ecológica, mas de uma poderosa declaração artística e política, num país rico em recursos mas onde a população vive com muito pouco.
Os Pioneiros do Som Reciclado
Bebson de la Rue: O Laboratório Sonoro
Tudo começou com uma figura lendária: Jean-Claude Elemba, conhecido como Bebson de la Rue (Bebson da Rua). Na sua “oficina” na Avenida Kato, Bebson juntava-se a outros artistas para explorar os sons que se podiam extrair de objetos do quotidiano. A sua missão era “criar uma banda sonora original da cidade”, recuperando “objetos da vida” para fazer música. Foi o pioneiro desta “ecologia sonora” feita de sucata e imaginação.
Fulu Miziki: Os Super-Heróis do Gueto
O nome Fulu Miziki significa precisamente “música do lixo” em Lingala. Este coletivo leva o conceito ao extremo. Com fatos feitos de sacos de plástico e máscaras de animais imaginários, os membros do grupo constroem os seus instrumentos a partir de latas, pneus velhos e qualquer objeto descartado pelos 15 milhões de habitantes da cidade.
- Instrumentos Improváveis: Criam tambores com panelas, cordofones improvisados e xilofones com pedaços de plástico.
- Mensagem de Resiliência: A sua música, uma mistura de ritmos viciantes e caos organizado, fala da dureza da vida na cidade e da esperança num futuro melhor. Como diz o membro Pisko: “O louco é aquele que vislumbra a verdade, vê o futuro. Eu sonho em poder inventar o que ninguém fez antes.”
A Nova Geração: Kokoko e a Triangulação Sonora

A banda Kokoko (que significa “toc, toc, toc”) é um dos nomes mais sonantes a surgir desta cena. Formada por cinco artistas, a sua música é uma mistura explosiva de sons acústicos (feitos com objetos como bicicletas e máquinas de escrever), elétricos e eletrónicos.
O produtor francês Débruit, que colaborou com a banda, descreve o som como uma “triangulação” de influências, lembrando a energia punk-funk de Nova York nos anos 70, mas com uma abordagem eletrónica mais direta e crua. As letras, embora falem da realidade social, são muitas vezes “mascaradas” para evitar problemas com as autoridades, numa estratégia de sobrevivência num ambiente político tenso.
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O Espírito Continua: Kin’Gongolo Kiniata e Tshegue
A criatividade não se fica por aqui.
- Kin’Gongolo Kiniata: O nome do grupo vem do som kingolo feito pelos vendedores de querosene, um som que, para os habitantes de Kinshasa, anunciava a “luz” (para as candeias). A sua música é uma fusão de ritmos frenéticos, loops e vocais bizarros, misturando tradições de várias etnias congolesas com rock e eletrónica. A mensagem é positiva: mostrar que é possível criar algo extraordinário mesmo numa cidade superpoluída.
- Tshegue: Este duo, liderado pela vocalista Faty Sy Savanet, nascida em Kinshasa mas radicada em Paris, oferece uma versão mais crua e punk do som congolês. A sua música, difícil de rotular, mistura ritmos tribais com uma atitude rock, criando algo que soa simultaneamente espiritual e selvagem, minimalista e denso.
As Raízes de um Movimento: Konono N°1 e os Pioneiros
Este movimento de reciclagem sonora não é novo. Nos anos 70, grupos como o lendário Konono N°1 já amplificavam as suas likembes (pianos de dedo) com altifalantes recuperados do lixo, criando um som distorcido e único que lhes valeu comparações com nomes como Kraftwerk ou Lee Perry.
Outros pioneiros, como Bony Bikaye, já sonhavam em fundir vozes africanas com a música eletrónica experimental, provando que esta veia criativa e de “desenrasca” sempre fez parte do ADN musical de Kinshasa.
Conclusão
A música feita com lixo em Kinshasa é muito mais do que uma curiosidade. É um testemunho poderoso da resiliência humana, da criatividade que nasce da necessidade e de uma forma de arte que transforma a decadência em beleza e o caos em ritmo. É um som que, vindo do coração de África, nos interpela a todos sobre o consumo, o desperdício e o verdadeiro significado de criar.

